Hark: o fundador da Figure AI aposta US$100M do próprio bolso em 'interface para AGI'
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Marina Santos - 31 Mar, 2026
Brett Adcock tem um padrão. Funda empresas ambiciosas, levanta capital agressivamente e aposta em teses que soam impossíveis até provarem que não são. Fez isso com a Vettery (recrutamento, vendida à Adecco), fez com a Archer Aviation (eVTOL, abriu capital via SPAC) e faz com a Figure AI, que construiu robôs humanoides e levantou mais de US$1.6 bilhão em dois anos. Agora, a nova aposta: Hark.
A startup saiu de oito meses em stealth com uma tese que chama atenção pela ambição. Hark quer construir a “interface dedicada para AGI” — um dispositivo de hardware combinado com IA personalizada que, segundo Adcock, será o paradigma de interação com inteligência artificial que vai substituir chat e browser. E o detalhe que define o tom: os US$100 milhões iniciais saíram do bolso dele.
O que “interface para AGI” significa na prática
A tese da Hark parte de uma premissa que, isoladamente, faz sentido: se inteligência artificial geral eventualmente existir, interagir com ela via caixa de texto num navegador é subótimo. Um sistema genuinamente inteligente precisaria de uma interface que capture contexto visual, auditivo e ambiental em tempo real — não apenas texto digitado.
Até aí, o argumento é racional. O problema começa quando tentamos traduzir isso em produto.
Adcock não divulgou especificações do hardware, data de lançamento ou demonstrações funcionais. O que temos são declarações de visão: hardware proprietário, IA personalizada que aprende o comportamento do usuário, interação multimodal que vai além de tela e teclado. É uma pitch deck ambulante — convincente em PowerPoint, indefinida em engenharia.
E aqui mora a tensão. A Hark está vendendo o futuro (AGI precisa de interface nova) enquanto o presente (chat funciona surpreendentemente bem) ainda não esgotou suas possibilidades. ChatGPT, Claude, Gemini — todos evoluíram de caixa de texto para interfaces multimodais com voz, visão e execução de código. A pergunta que a Hark precisa responder é: o que um hardware dedicado faz que um smartphone com app de IA não faz?
O cemitério de hardware + IA
É impossível analisar a Hark sem olhar para os cadáveres recentes.
O Humane AI Pin foi lançado em 2024 como o “dispositivo pós-smartphone”. Custava US$699 mais assinatura mensal de US$24. Projetava informações na palma da mão com um laser. As reviews foram devastadoras: lento, impreciso, bateria de 2 horas. A Humane tentou se vender, não encontrou comprador no valor que queria e virou case de estudo de como não lançar hardware de IA.
O Rabbit R1 custava US$199 e prometia um “assistente universal” que operava apps por você via um modelo proprietário (LAM — Large Action Model). Na prática, fazia menos que os apps que prometia substituir. As vendas iniciais foram altas por curiosidade, mas o dispositivo acabou em gavetas.
Ambos compartilham o mesmo erro: assumiram que IA precisa de um novo form factor antes que a IA em si estivesse boa o suficiente para justificar o form factor. Quando o software ainda está evoluindo a cada trimestre, fixar uma interface de hardware é apostar que você sabe como vai ser a interação com IA daqui a 3 anos. Ninguém sabe.
O contra-argumento: por que Adcock pode estar certo
Existe um cenário onde a Hark faz sentido. E ele depende de timing.
Se AGI (ou algo próximo) chegar nos próximos 3-5 anos — como Anthropic, OpenAI e DeepMind parecem acreditar —, a interação com essa inteligência vai demandar mais do que uma janela de chat. Um sistema que vê o que você vê, ouve o que você ouve, entende seu contexto físico e responde em tempo real precisa de sensores, processamento local e uma interface pensada para fluxo contínuo, não para prompts discretos.
Adcock pode estar construindo para esse momento. E o fato de usar US$100 milhões do próprio dinheiro — não de VCs — muda o cálculo. Ele não precisa mostrar métricas de tração em 18 meses. Não tem board cobrando pivots trimestrais. Tem runway para errar, iterar e esperar o momento certo. É uma vantagem estrutural que Humane e Rabbit não tinham.
A Figure AI, sua outra empresa, também dá pistas. Adcock construiu robôs humanoides que operam em fábricas — hardware complexo que integra IA em tempo real. Ele sabe fazer hardware funcionar com modelos de IA. A questão é se essa competência em robótica se traduz para dispositivos pessoais, que são um mercado completamente diferente.
O que falta na tese
Três perguntas que a Hark ainda não respondeu:
Distribuição. Hardware pessoal de IA compete com o smartphone. Não em funcionalidade — em hábito. Oito bilhões de pessoas já têm um dispositivo no bolso que faz chamadas, tira fotos e roda apps de IA. Convencer alguém a carregar um segundo dispositivo exige que ele faça algo que o smartphone categoricamente não pode fazer.
Modelo de negócio. Hardware é margens baixas, supply chain complexa e ciclos de produto longos. A Apple leva 3 anos para desenvolver um iPhone. A Humane levou 4 anos e falhou. US$100 milhões cobrem prototipagem e primeiras iterações, mas se o produto precisar de escala de manufatura, o capital acaba rápido.
Timing de AGI. A tese inteira depende de AGI chegar num horizonte onde o hardware da Hark ainda seja relevante. Se AGI demora 10 anos, a primeira geração do produto vai parecer tão datada quanto um Palm Pilot.
O ângulo para o ecossistema
Independentemente de a Hark ter sucesso, a movimentação de Adcock sinaliza algo relevante: founders com capital e track record estão começando a apostar que a era do “chat como interface de IA” tem prazo de validade. É uma minoria ainda, mas é uma minoria com dinheiro.
Para o ecossistema brasileiro, o aprendizado é indireto mas importante. A maioria das startups de IA no Brasil está construindo sobre a camada de software: agentes, automações, integrações via API. Se a interface mudar, o que está por baixo (os agentes, os modelos, os pipelines de dados) continua valendo. Mas quem apostou toda a experiência do usuário em chat pode precisar repensar.
A Hark é uma aposta de US$100 milhões numa pergunta que ainda não tem resposta: como vamos interagir com IA quando ela for inteligente de verdade? Brett Adcock acha que sabe. O cemitério de hardware de IA sugere cautela. E o mercado, como sempre, vai decidir com a carteira.