Apple adiou a Siri com Gemini — de novo. O que está travando?

Apple adiou a Siri com Gemini — de novo. O que está travando?

A Apple prometeu que o Siri ficaria inteligente. Prometeu em janeiro, quando anunciou o deal de $1 bilhão com o Google para integrar o Gemini 1.2T ao assistente via Private Cloud Compute. Prometeu em fevereiro, quando executivos garantiram que o iOS 26.4 traria as primeiras features. Prometeu de novo em março, quando o prazo virou iOS 26.5. Ontem, 30 de março, o iOS 26.5 beta saiu para desenvolvedores. Sem Gemini. Sem nada.

Agora o novo prazo é iOS 27, previsto para ser apresentado na WWDC em junho. Terceiro adiamento em três meses. A pergunta não é mais “quando chega”. É se chega.

O que foi prometido

Em janeiro de 2026, durante a CES, a Apple confirmou o que já era rumor havia meses: o Siri seria reformulado com o Gemini do Google. Não era um upgrade cosmético. O plano envolvia um modelo de 1.2 trilhão de parâmetros rodando via Private Cloud Compute — a infraestrutura de nuvem segura da Apple, onde os dados do usuário seriam processados sem sair do ecossistema.

A ideia era simples e ambiciosa. O Siri deixaria de ser um atalho glorificado para comandos de voz e passaria a entender contexto, manter conversas longas, integrar com apps de terceiros de forma profunda e — finalmente — competir com o Google Assistant e o ChatGPT em capacidade real.

O deal de $1 bilhão com o Google cobriria licenciamento do modelo, acesso à API e suporte para otimização do Gemini em hardware Apple. A promessa inicial era março de 2026, com o iOS 26.4.

Três meses, três adiamentos

Março chegou. O iOS 26.4 saiu com melhorias no Apple Intelligence — melhor sumarização de e-mails, ajustes no Image Playground — mas nada de Gemini no Siri. A Apple não comentou publicamente. Fontes próximas ao projeto disseram que a integração com o Private Cloud Compute estava mais complexa que o esperado.

O prazo foi empurrado para o iOS 26.5. Desenvolvedores e analistas aceitaram. Integrações desse porte levam tempo. Faz sentido.

Mas o iOS 26.5 beta, disponibilizado ontem para desenvolvedores, não traz nenhuma feature de Gemini. Nem parcial. Nem em flag escondida. A 9to5Mac vasculhou o código da build e não encontrou referências ativas à integração. O MacRumors confirmou: tudo foi empurrado para a WWDC e o iOS 27, previsto para setembro na versão final.

Três adiamentos em três meses. O padrão é preocupante.

O que provavelmente está travando

A Apple não é transparente sobre motivos de atraso, mas os indícios apontam para três problemas:

Privacidade e controle de dados. O Private Cloud Compute é o trunfo de privacidade da Apple. Rodar um modelo de 1.2T parâmetros nessa infraestrutura sem que dados de usuários vazem para o Google é um problema de engenharia não trivial. A Apple precisa garantir que o Gemini processa e descarta — sem reter, sem treinar, sem logar. Isso exige camadas de isolamento que provavelmente não existiam na versão original do PCC.

Latência. Um modelo desse tamanho, rodando em nuvem, precisa responder em tempo real para que o Siri não pareça mais lento que o assistente de voz que ele está substituindo. Inferência de modelos trilionários com latência aceitável para interação por voz é um desafio que até o Google ainda está otimizando nos próprios dispositivos.

Controle de qualidade. A Apple tem histórico de atrasar features até que funcionem de forma aceitável. O problema é que “aceitável” para a Apple é alto — e o Siri com Gemini precisa funcionar em dezenas de idiomas, incluindo português brasileiro. Alucinações, respostas inconsistentes ou perda de contexto seriam devastadoras para a marca.

Nenhum desses problemas é surpresa. Todos eram previsíveis em janeiro. O que surpreende é que a Apple tenha se comprometido com prazos que aparentemente não podia cumprir.

Apple Intelligence virou vaporware?

Vaporware é duro. Mas o termo começa a caber.

O Apple Intelligence foi anunciado na WWDC de 2024. Quase dois anos depois, as features entregues são incrementais — sumarização de texto, geração de emoji, reescrita de mensagens. Funcionalidades que o Google e a Microsoft já oferecem há mais de um ano. O Siri com Gemini era para ser o salto de qualidade. A feature que finalmente justificaria o “Intelligence” no nome.

Enquanto isso, o Google roda o Gemini nativamente em Pixels e dispositivos Samsung. A Microsoft integra o Copilot no Windows, Office e Edge. O ChatGPT está em praticamente todo lugar. A Apple, que controla o hardware mais premium do mercado, está ficando para trás na camada de software que mais importa para o usuário.

E o Brasil?

Esse adiamento importa especialmente para o mercado brasileiro. O iPhone tem uma base instalada estimada em mais de 40 milhões de dispositivos no Brasil. É o smartphone aspiracional. E seus donos estão vendo usuários de Android acessar IA generativa no dispositivo enquanto o Siri continua respondendo “aqui está o que encontrei na web”.

Tem um agravante. O Apple Intelligence, mesmo nas features já lançadas, ainda não funciona em português brasileiro. A sumarização, a reescrita, o Image Playground — tudo em inglês. A promessa de suporte ao português foi feita para “2026”, sem data específica. Com os adiamentos do Gemini, é razoável duvidar desse prazo também.

Para desenvolvedores brasileiros que constroem apps para iOS, a mensagem é clara: não conte com APIs de IA da Apple a curto prazo. Quem precisa de IA no app continua dependendo de OpenAI, Anthropic ou Google diretamente.

O que esperar

A WWDC em junho será o momento da verdade. Se a Apple apresentar o Siri com Gemini funcionando — ao vivo, em tempo real, com qualidade — os adiamentos viram “a Apple levou o tempo necessário para acertar”. Se houver mais um “coming later this year”, a narrativa muda de atraso para incapacidade.

O deal de $1 bilhão com o Google não vai simplesmente evaporar. Há dinheiro demais envolvido. Mas dinheiro não resolve problemas de engenharia sozinho. E a Apple, que construiu sua reputação em entregar quando promete, está acumulando um déficit de credibilidade em IA que cada adiamento aumenta.

A única coisa certa é que, em 31 de março de 2026, o Siri continua sendo o Siri. E isso, por si só, já é a maior crítica possível.